Pessoas temporárias

Atualidades

Às vezes estamos na rua, um estranho nos surpreende com um gesto de generosidade ou até um conhecido nos diz uma gentileza aparentemente gratuita...

Mas como eternizar (e mostrar gratidão por) momentos como esses, aparentemente triviais mas que colorem nossos dias com um poder de poucos eventos?

Pensando nisso, há pouco mais de um ano, Juliana Casemiro, 30, criou o projeto Temporary People, de modo a “eternizar” esses momentos.

Percebi que quando passava por dias cinzas e relia as histórias (que já escrevia faz tempo) meus dias coloriam. Após entender isso, me dei conta que as redes sociais precisavam de um respiro, de algo leve, positivo. Eu mesma buscava isso quando entrava. Então decidi que precisava fazer a minha parte.”

Abaixo, ela conta mais sobre o que aprendeu nesse tempo:

1) O nome do projeto, "Temporary People", tem um significado especial. O que são essas "pessoas temporárias"?
O temporário, nesse caso, refere-se mais ao período de tempo que essa pessoa fez parte da vida. Uma pessoa temporária pode estar presente em um instante ou durante anos. Mas o que importa é que o que ela deixa é atemporal e inesquecível.

2) Você é cheia de histórias boas e inspiradoras. Qual a mais marcante ou que define a ideia do seu projeto?
A primeira é, oficialmente, a que considero o click pro projeto, foi quando abri os olhos para os desconhecidos. Ela aconteceu em 2003, e muitos anos tiveram que passar pra eu revisitá-la e entender que gostaria de contá-la publicamente. Mas, sem querer ser clichê, acredito mesmo que cada história que chega é que define o projeto de verdade.

3) Para você, Juliana, o que significa gratidão?
Gratidão foi a palavra que iniciou tudo. O tp é um projeto 100% criado em gratidão a todos que passaram pela minha vida e me trouxeram até aqui. Fiz por mim e por eles. Hoje, faço em conjunto com mais de 10 mil pessoas e, naturalmente, a gratidão é o elo que mantenho com todos que me acompanham nessa jornada. Estamos juntos por isso, por acreditar.

4) E a que você é mais grata na vida?
Sou grata pela minha Vó Olivia, a melhor contadora de histórias que já conheci. Desde criança, era uma história atrás da outra. Ela não poupava detalhes e colocava emoção em tudo. Me fez viver em décadas distantes e acreditar que estar no momento, de verdade, faz tudo virar uma memória incrível. E ela é uma das minhas melhores memórias por isso também.

5) Na sua opinião, as pessoas têm dificuldades em reconhecer as coisas boas e em ser gratas?
Eu já achei isso, hoje não mais. Sou contra a teoria do "não esperar nada do próximo". Acho que temos que esperar, sim, o melhor das pessoas. Acredito que a energia que colocamos no mundo é a que volta, então usufruo disso pra reconhecer o que acontece de bom ao meu redor e enxergar quando os outros vivem o mesmo.

6) Como ajudar a enxergar o lado bom das coisas? O projeto contribui em alguma medida?
Talvez o que falte seja olhar mais pro lado do que pra tela do celular, ouvir quem puxa conversa na fila, dar bom dia pra moça do caixa que você vê toda semana. Minha meta é arrancar um sorriso por dia de um desconhecido - seja lá como for! As coisas boas estão em todos os lugares e o simples fato de enxergá-las eu já considero um excelente exercício de gratidão.

7) Ao mesmo tempo, pipocam por aí projetos e iniciativas feito a sua, reconhecendo a gratidão como algo fundamental. Por que você acha que existe esse movimento?
Porque precisamos. A realidade não é simples nem fácil. Todos temos nossas dores e queremos "mais amor, por favor". Eu vejo as pessoas dentro de suas crenças ou desejos, buscando um lugar melhor. E, como passamos muito tempo conectados, nada mais natural do que ver isso migrando pra esse habitat também.

8) O que vc acha dessa frase: "Os mortos recebem mais flores que os vivos porque o remorso é mais forte que a gratidão”, de Anne Frank?
Meu primeiro emprego foi em Londres, com 18 anos, como vendedora de flores. Vender sentimentos é a melhor sensação do mundo. E vendia muito, viu! As pessoas compravam pra elas, pra casa, pra alguém, sem sequer pensar tanto. Atos de gentileza acontecem assim, sem raciocínio. Acho que o que faltam são mais barracas de flores pelas ruas por que passamos.


Undefined_2fimg_8688 Fabiane Gori Curvo

Psicóloga, formada pela PUC-Rio. Especializada em Terapia Cognitivo Comportamental e pós-graduanda em Psicologia Positiva. Tem experiência na área de Terapia Dialética Comportamental, que ajuda na redução do estresse e na regulação emocional. Seu foco é no atendimento clínico individual e em grupos terapêuticos que realiza em seu consultório na cidade do Rio de Janeiro.

fabiane@saladeideias.com.br