Amor que vem pelas mãos

Paternidade

No quinto ano da faculdade de Psicologia da PUC-SP, Patricia Lomonaco conheceu a Shantala, massagem milenar feita em bebês como uma forma de interação mais corporal e cuidadosa com esse ser que acabou de chegar ao mundo.

“Foi paixão à primeira vista [com a massagem]”, conta a psicóloga sobre o método, que foi difundido no ocidente nos anos 1970 pelo obstetra francês Frederick Leboyer.

Apesar de ser de SP (e trabalhar lá), Patricia ministra cursos no Rio esporadicamente. Leia sobre o que ela tem a dizer sobre esse momento tão especial:

1) Qual o principal benefício da Shantala para o bebê?

Acho que isso depende muito da demanda de cada família. Se o recém-nascido tem muita cólica ou não dorme, o alívio desses incômodos pode ser o maior benefício, pois a Shantala também ajuda no trato dessas questões. Porém, eu particularmente considero que o maior benefício é estreitar o vínculo dos pais com o bebê e proporcionar um momento de relaxamento, onde será transmitido segurança, amor e acolhimento, que marcará para sempre. Muitos pais querem interagir com o bebê, mas não sabem como. Através do toque eles conseguem a comunicação corporal com o pequeno, que fala através do corpo.

2) Qual a melhor idade para iniciar os bebês na massagem? E até quantos anos eles podem se beneficiar?

De maneira geral, se os bebês nascem na idade gestacional prevista e sem restrições, podem começar a receber a massagem após completarem um mês. Algumas pessoas defendem que pode começar logo que nasce, mas eu gosto de esperar 40 dias, pois o primeiro mês é de muita adaptação, tanto para a mãe quanto para o bebê, que mama e dorme grande parte do tempo. Não existe idade máxima para receber. A Shantala pode ser feita até o filho aceitar e o cuidador ter disponibilidade de fazer, inclusive em crianças maiores e em adultos. A questão é que temos que adaptar a fase de desenvolvimento deles.

3) Como se explica a relação da água e do banho para o bebê?

Depois da Shantala, é sugerido tomar banho. Não para tirar o óleo, mas sim para o pequeno terminar de relaxar. A ideia é que a tensão que a Shantala não tirar a água irá dissolver. Frederick Leboyer sugere colocar o bebê na água e deixá-lo quieto, relaxando.

4) Como é a técnica do ofurô para o bebê?

Ofurô para adultos têm origem japonesa, que depois foi adaptada aos pequenos. O recipiente arredondado e a água quentinha remetem ao útero, que transmitem muita segurança, já que é algo familiar para eles. Gosto bastante de fazer ofurô, pois é mais fácil para deixá-los paradinhos e aconchegados. Quando eles dormem no ofurô é um momento especial, dos que mais gosto!

5) Qual o perfil dos pais que a procuram? Mais as mães ou o casal mesmo?

A grande maioria das pessoas que me procuram estão preocupadas com o bem-estar do pequeno e curtindo a maternidade/paternidade. A mãe é quem me procura, mas é comum elas mencionarem que o pai quer estar presente no dia do curso, e assim tentamos achar um dia que possamos estar nós 4: mãe, pai, bebê e eu.

6) É uma técnica difícil de aprender? Os pais precisam ter alguma perícia específica?

Parafraseando Frederick Leboyer, é “simples, mas difícil e difícil por ser simples, como tudo que é profundo”. Acredito que a aptidão específica necessária seja a vontade de aprender e disponibilidade interna para massagear. O toque é muito poderoso e mobilizador, tanto para quem toca quanto para quem é tocado.

7) Qual a maior dificuldade de adaptar uma massagem indiana para pais brasileiros, levando em conta que vivemos em uma cultura completamente diferente?

A Shantala é uma massagem ayurvédica, que é a medicina tradicional na Índia, e tem forte influência da Hatha Yoga. Vamos imaginar uma indiana que acabou de ter um bebê. Ela cresceu com uma medicina que valoriza os elementos da natureza, os alimentos e a massagem. A Yoga e a meditação também são elementos muito familiares e próximos dela. Trata-se de uma cultura muito voltada para os aspectos internos. Agora com o recém-nascido, todo o ritual da massagem já faz imenso sentido, e essa nova mãe terá que aprender apenas a sequência de movimentos. Por outro lado, a brasileira média cresceu na cultura da medicina alopática, nunca ou poucas vezes foi massageada, e muito possivelmente não tem intimidade com Yoga e meditação. O desafio não é apenas aprender a sequência dos movimentos, mas também entender toda a sutileza intrínseca ao ritual do momento Shantala e desenvolver a sua consciência corporal. A postura é outro grande desafio. As brasileiras não aguentam ficar na postura tradicional, com as pernas esticadas e as costas retas, por muito tempo, começa a doer tudo, então sugiro posturas alternativas.

8) Como é a prática no Brasil? Existe um centro de estudo em que os ensinamentos sejam transmitidos?

Diferentemente da Índia, onde a sabedoria da massagem é transmitida de mãe para filha, aqui no Brasil, a massagem é ensinada por profissionais, especialmente por aqueles da área de psicologia ou fisioterapia. No começo, a Shantala era ensinada por profissionais liberais e instituições menores, a maior parte delas voltada ao oferecimento de terapias alternativas e antenadas em práticas saudáveis existentes em outros países. Como os benefícios da Shantala vêm sendo cada vez mais reconhecidos, o número de instituições que oferecem cursos nessa área tem aumentado. Por exemplo, desde o ano passado, a maternidade do Hospital São Luiz, em São Paulo, que é referência no Brasil, passou a oferecer um curso em grupo de Shantala como parte do seu programa de orientação de casais gestantes. Os cursos em grupo são mais indicados para casais gestantes, enquanto os cursos individuais, em domicílio, são mais apropriados para quando os bebês já nasceram.

9) Você diz que prefere quando as mães expliquem o passo a passo para os bebês, mesmo que eles ainda não entendam (em oposição a quem só começa a explicar as coisas para os bebês quando eles começam a entender). Por que isso?

Acredito que os cuidadores devem conversar com o bebê de maneira geral, ao longo do dia, não apenas durante a Shantala: “Agora a mamãe vai tirar sua roupa e fazer uma massagem bem gostosa em você”, “Vamos virar de bruços para massagear suas costas?”,“Espere um pouquinho, mamãe está preparando sua seu banho e já vai aí te buscar”. Temos que apresentar o mundo para os bebês, para ajudá-los a construir a realidade e aprenderem a se relacionar. Conversar e explicar para eles entenderem, e não esperar que eles entendam para começar a falar com eles. No começo, eles podem não entender exatamente o que está sendo dito, mas entendem que estamos falando com eles e em qual tom.

10) Você também é psicóloga. Como usa a psicologia nesse trabalho?

Uso a psicologia o tempo inteiro, pois não consigo separar uma coisa da outra. Vamos lembrar que a família em questão passou por muitas mudanças importantes no ultimo mês (meses) com a presença do bebê, tempo que exige adaptações físicas e psicológicas. Com frequência, converso com as famílias sobre preocupações e dificuldades apresentadas. Não que substitua uma terapia, mas uma colocação pontual pode ter um poder organizador maravilhoso. Sobretudo porque a maternidade é “vendida” em nossa sociedade como um momento mágico e perfeito, quando, na verdade, tem imensos desafios a serem superados. Muitas mães são pegas de surpresa quando o bebê nasce, sentem-se desamparadas e nem sabem que tipo de ajuda podem procurar, ou até mesmo não pensam que uma ajuda poderia ser bem-vinda. Fico atenta o tempo todo, mas, ao mesmo tempo, respeito a abertura que é dada para trabalhar essas questões, já que não fui chamada lá para isso. A experiência acadêmica e prática agregou um conhecimento importante. Hoje, quando eu entro na casa das famílias, tento olhá-los sem julgamento e busco me colocar no lugar deles, atenta às dificuldades inerentes a esta fase e sabendo da importância da relação mãe-bebê (cuidador-bebê).

11) Você diz gostar muito e ser muito grata por trabalhar com bebês. Qual o ponto mais positivo nisso?

Sempre gostei muito de bebês e da relação mãe/bebê. Esse interesse, inclusive, me levou a fazer especialização e mestrado em psicologia nessa área e curso de doula, para que pudesse aprofundar o meu conhecimento teórico dessa temática. Na minha visão, os bebês são delicados, puros e têm uma energia maravilhosa. Acho um milagre gerar uma vida, e sagrado recebê-los. Você acredita em vida após a morte? Eu acredito, mas não tenho ideia de como será. Vou chegar em um lugar desconhecido, provavelmente com uma lógica completamente diferente, e ficaria muito, muito mais tranquila e segura se houvesse pessoas muito amorosas comigo me ajudando nesta adaptação. Se alguém falasse uma língua mais parecida com a minha, então, melhor ainda, íamos conseguir nos comunicar com muito mais facilidade. A linguagem dos bebês é corporal, assim como a massagem!

Patricia Lomonaco
E-mail:patricia@massagemshantala.com.br
Site: www.massagemshantala.com.br
Instagram: @shantala_neles
Facebook: Massagem Shantala e Psicologia da Maternidade


Undefined_2fhelena Helena Cardoso

Helena Cardoso é psicóloga, formada pela PUC-Rio, com especialização em Terapia Familiar Sistêmica Breve e Entrevista Motivacional. É supervisora clínica na instituição Núcleo-Pesquisas, e faz atendimentos individuais, de família e casal em seu consultório. Contribui com textos para o site Disney Babble Brasil. É também sócia fundadora do Véspera, projeto que atua no preparo emocional de noivos para a vida a dois.

helena@saladeideias.com.br